Polifarmácia em idosos: interações, efeitos colaterais e principais riscos
22 de setembro de 2026 · 9 min de leitura

Tomar vários medicamentos ao mesmo tempo pode fazer parte da rotina de muitas pessoas mais velhas. Remédios para pressão, diabetes, colesterol, coração, dores, sono e outras condições podem ser necessários para manter a saúde sob controle.
O problema começa quando essa lista cresce e ninguém revisa regularmente se todos os medicamentos continuam sendo necessários, se as doses estão adequadas ou se existe alguma interação entre eles.
Esse cenário é conhecido como polifarmácia e merece atenção especial na pessoa idosa.
O que é polifarmácia?
De forma geral, o termo é utilizado para descrever o uso regular de cinco ou mais medicamentos ao mesmo tempo.
O Ministério da Saúde destaca que, entre pessoas idosas, a polifarmácia pode aumentar o risco de interações medicamentosas, efeitos adversos, quedas e prejuízos à qualidade de vida, principalmente quando não existe acompanhamento adequado.
Mas existe um ponto importante:
Tomar vários medicamentos não significa, necessariamente, que algo esteja errado.
Uma pessoa pode precisar de diversos tratamentos para controlar diferentes doenças. O cuidado está em garantir que cada medicamento tenha uma indicação adequada, na dose correta e considerando os outros medicamentos utilizados.
Por que o idoso pode ser mais sensível aos medicamentos?
Com o envelhecimento, algumas mudanças acontecem naturalmente no organismo.
O funcionamento dos rins e do fígado pode se modificar, por exemplo, alterando a forma como determinadas substâncias são processadas e eliminadas pelo corpo.
Isso pode fazer com que alguns medicamentos permaneçam por mais tempo no organismo ou tenham efeitos diferentes daqueles observados em pessoas mais jovens.
Por isso, uma dose que anteriormente era bem tolerada pode precisar de reavaliação ao longo do tempo.
Atenção especial para:
- Alterações na função dos rins;
- Alterações na função do fígado;
- Perda de peso ou mudanças importantes no estado nutricional;
- Desidratação;
- Surgimento de novas doenças;
- Início de novos medicamentos;
- Mudanças na rotina ou no nível de atividade;
- Uso de suplementos, vitaminas, chás e produtos naturais.
Quais são os principais riscos da polifarmácia?
Quanto maior o número de medicamentos utilizados, maior pode ser a complexidade do tratamento. Entre os problemas que merecem atenção estão:
1. Interações entre medicamentos
Um medicamento pode alterar o efeito de outro.
Em alguns casos, uma combinação pode aumentar determinado efeito. Em outros, pode diminuir a ação de um medicamento ou aumentar a possibilidade de efeitos adversos.
Por isso, não basta avaliar cada remédio individualmente. É importante analisar a combinação de todos eles.
2. Tontura e queda
Alguns medicamentos podem contribuir para tontura, sonolência ou alterações da pressão arterial.
Em uma pessoa mais velha, esses efeitos podem aumentar o risco de desequilíbrio e quedas.
O Ministério da Saúde relaciona a polifarmácia inadequadamente acompanhada ao aumento do risco de quedas.
3. Sonolência e confusão
Alterações no estado de alerta, sonolência excessiva ou confusão podem aparecer como efeitos adversos de determinados medicamentos ou combinações.
Em algumas situações, uma mudança comportamental aparentemente inexplicável pode estar relacionada ao tratamento medicamentoso.
A Organização Mundial da Saúde também destaca a relação entre fatores relacionados a medicamentos, polifarmácia e maior risco de delirium em pessoas idosas.
4. Dificuldade para seguir corretamente o tratamento
Quanto maior a quantidade de medicamentos, mais difícil pode ser lembrar:
- Qual medicamento tomar;
- Qual dose utilizar;
- Em qual horário;
- Se deve tomar antes ou depois das refeições;
- Quais medicamentos já foram tomados naquele dia.
A própria OMS aponta a adesão ao tratamento como um desafio importante em situações de polifarmácia.
5. Efeitos colaterais que acabam sendo confundidos com outras doenças
Esse é um ponto especialmente importante.
Imagine que uma pessoa comece a apresentar tontura, fraqueza, sonolência e perda de apetite.
A primeira reação pode ser pensar que esses sintomas são simplesmente consequência da idade ou de alguma nova doença.
Mas também pode existir relação com um medicamento, com a dose utilizada ou com a combinação entre diferentes medicamentos.
Por isso, uma avaliação cuidadosa da lista de medicamentos pode fazer parte da investigação.
E os remédios que não precisam de receita?
Eles também precisam entrar na lista.
Analgésicos, antiácidos, medicamentos para gripe, suplementos, vitaminas, fitoterápicos e outras substâncias podem interagir com medicamentos de uso contínuo.
O Ministério da Saúde orienta que o paciente informe à equipe de saúde tudo o que utiliza, incluindo chás, xaropes, vitaminas, cápsulas, suplementos e preparações naturais.
“Natural” não significa automaticamente “sem risco”.
Algumas substâncias podem interferir na absorção ou na eliminação de medicamentos.
Por isso, o ideal é informar todos os produtos utilizados durante uma consulta.
O que é uma revisão dos medicamentos?
A revisão medicamentosa consiste em analisar o conjunto do tratamento e não apenas cada remédio isoladamente. Algumas perguntas importantes são:
- Este medicamento ainda é necessário?
- A dose continua adequada?
- Existe algum medicamento causando efeitos indesejados?
- Há alguma interação entre os medicamentos?
- Existe alguma duplicidade de tratamento?
- A função dos rins e do fígado foi considerada?
- O paciente está conseguindo tomar tudo corretamente?
- Algum medicamento pode estar contribuindo para tontura, quedas, sonolência ou confusão?
Ferramentas clínicas, como os critérios de Beers da American Geriatrics Society, são utilizadas por profissionais para identificar medicamentos potencialmente inadequados ou situações que exigem cautela em pessoas com 65 anos ou mais. Elas são instrumentos de apoio à decisão clínica e não substituem a avaliação individual de cada paciente.
Nunca pare um medicamento por conta própria
Ao perceber uma lista muito grande de medicamentos, é comum surgir a ideia: “Vamos tirar alguns para ver se melhora.”
Essa decisão pode ser perigosa.
Alguns medicamentos precisam ser reduzidos gradualmente ou exigem acompanhamento durante a retirada. Interromper determinados tratamentos de forma abrupta pode provocar problemas.
A Organização Mundial da Saúde reforça a importância da revisão dos medicamentos e alerta para os riscos de interromper tratamentos sem orientação profissional.
Na prática
Se você acha que seu pai, sua mãe, seu avô ou sua avó está tomando medicamentos demais, o melhor caminho não é simplesmente retirar os remédios.
É levar toda a lista para uma avaliação profissional.
Como a família pode ajudar?
A família pode ter um papel muito importante na segurança do tratamento.
Uma atitude simples é manter uma lista atualizada contendo:
- Nome de cada medicamento;
- Dose utilizada;
- Horário;
- Motivo pelo qual está sendo utilizado;
- Medicamentos usados apenas eventualmente;
- Vitaminas e suplementos;
- Chás e produtos naturais.
Também é importante atualizar essa lista sempre que houver uma mudança no tratamento.
Um cuidado simples que pode fazer diferença
Na próxima consulta, leve todos os medicamentos utilizados pelo paciente, quando possível. Isso ajuda o profissional a visualizar melhor o tratamento como um todo.
Quando é importante procurar avaliação?
Algumas mudanças merecem atenção, especialmente quando surgem depois do início de um medicamento ou após uma alteração na dose. Observe se aparecerem:
- Tontura frequente;
- Quedas;
- Sonolência excessiva;
- Confusão;
- Mudanças repentinas de comportamento;
- Fraqueza;
- Alteração importante do apetite;
- Náuseas ou outros sintomas persistentes;
- Dificuldade para administrar os horários dos medicamentos;
- Esquecimentos frequentes das doses;
- Uso cada vez maior de medicamentos por conta própria.
Esses sinais não significam necessariamente que o problema seja causado pelos medicamentos. Mas podem justificar uma avaliação cuidadosa.
Cuidar dos medicamentos também é cuidar da pessoa
Para muitas famílias, uma lista extensa de medicamentos passa a fazer parte da rotina e deixa de chamar atenção.
Mas o tratamento precisa acompanhar as mudanças que acontecem ao longo da vida. Novas doenças aparecem. Outras podem ser controladas. O organismo muda. Novos medicamentos são acrescentados.
Por isso, uma lista de medicamentos não deve ser considerada definitiva para sempre. A revisão periódica ajuda a manter o tratamento alinhado às necessidades atuais da pessoa.
Mais do que perguntar apenas “quantos remédios ele toma?”, é importante perguntar:
“Todos eles ainda são necessários, estão sendo utilizados da forma correta e continuam sendo seguros para ele?”
Um cuidado que envolve toda a família
Cuidar da saúde de uma pessoa mais velha muitas vezes significa acompanhar consultas, organizar medicamentos e perceber pequenas mudanças na rotina.
Quando a família participa desse processo, fica mais fácil identificar alterações e levar informações importantes ao profissional de saúde.
O acompanhamento individualizado pode ajudar a avaliar o conjunto do tratamento, considerando as condições de saúde, a rotina, a funcionalidade e os objetivos de cada pessoa.
